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terça-feira, 1 de julho de 2014

Conclusões

O blog “Crítica Nerd” foi criado com a intenção de analisar um portal, muito influente e conhecido, totalmente idealizado para o público nerd, cujo conteúdo é rico e diversificado e que sempre tem muitos acessos. Trata-se do “Jovem Nerd”. Diante do impacto que este portal tem entre o público a que se destina, bem como seu formato criativo e interessante, entendemos que sua análise poderia ser proveitosa. Além disso, outros pontos que influenciaram nossa escolha foram a multiplicidade e a amplitude de conteúdo do portal, bem como a forma como são abordados temas deste universo nerd – sempre com humor, de maneira leve, cativante, inteligente e atualizada – o que nos chamou bastante a atenção. Provavelmente este é um dos portais de maior visibilidade no Brasil sobre o tema e seu podcast é um dos mais baixados
           

A partir da análise das diversas seções que compõem o portal - Nerdcast, Nerdoffice, Nerdplayer, Matando Robôs Gigantes, A Maravilhosa Cozinha de Jack, Colunas e Contos -, foi possível observar que os temas que costumam permear as publicações do “Jovem Nerd” são os mais variados! Evidencia-se que o campo de interesse dos nerds é muito vasto e abarca inúmeras áreas: notícias, virais da internet, viagens, eventos nerds, quadrinhos, literatura, games, cinema, twitter, facebook e outros assuntos gerais (de política a zumbis, piratas e aliens!). Os produtores do conteúdo dos blogs do portal estão sempre atentos para abordar temas contemporâneos e de interesse dos nerds que os acompanham. E o que interliga todo este amplo espectro de assuntos de forma harmônica é a identidade que blog construiu. 

           
Nas diversas seções do portal, há a ideia comum de que este é um site feito por nerds e dedicado a nerds. Assim, um tom de leveza e naturalidade permeia a produção do seu conteúdo, porque os criadores falam daquilo de que gostam, entendem e pelo que se interessam. Com essa tônica, e também com uma preocupação em manter a irreverência e a liberdade na forma de tratar suas temáticas, conquistou um público fiel, que estabeleceu uma relação muito boa com o “Jovem Nerd”. Assim se construiu a identidade deste site, através de recursos audiovisuais, pelas características de seus apresentadores/escritores/locutores, e também ao desenvolver uma linguagem simples, bem-humorada, sincera e espontânea, o que se expressa em cada uma das colunas do “Jovem Nerd” e as interliga, apesar da multiplicidade de seu conteúdo.

Autoria coletiva




E quando os fãs escrevem?

No espaço literário do blog “Jovem Nerd” há uma categoria muito especial de Contos chamada “Fãs”, dedicada a pessoas que gostam da temática nerd, acompanham o blog e curtem escrever contos, a fim de que postem suas produções originais – fanfics ou não – e sejam lidas por mais uma galera que também gosta da coisa.
            
Essa seção parece ser um pouco nova no blog. É um espaço muito legal, que permite o estímulo à criatividade dos fãs e o compartilhamento das coisas que eles escrevem. Mas é um canto do “Jovem Nerd” que parece andar meio esquecidinho. Os contos publicados datam de dezembro de 2013 a janeiro de 2014. É um intervalo de tempo muito limitado – e já não há postagens novas há mais de seis meses! O que será que está acontecendo? Desinteresse dos fãs ou o blog parou de publicar os textos

Uma primeira coisa que chama a atenção é que não se pode saber como fazer, exatamente, para enviar um conto ao blog. Essa informação simplesmente não aparece na página de contos! Talvez quem conseguiu ter seu conto publicado deva ter enviado ao email de contato do blog. Mas essa falta de clareza não ajuda os fãs a mandarem seus trabalhos ou se sentirem estimulados a fazer isso. Por outro lado, percebemos, nos contos que já estão postados, que há uma aceitação de diferentes tipos de textos – alguns muito bons e outros nem tanto –, o que demonstra que a chance de participar está estendida a qualquer um – escritor exímio ou aspirante. E isso é muito bom!

Apesar de parecer estar um tanto quanto “largado”, esse espaço conta com produções originais interessantes, desde algumas fanfics, contos inspirados em enredos conhecidos e muita coisa totalmente nova! Isso demonstra o interesse que a literatura desperta nos jovens considerados nerds. Por isso, e por ser uma seção tão legal, que conecta os leitores do blog à própria produção de conteúdo para o blog, é uma pena que não haja mais publicações de contos, com uma periodicidade mais definida, e que não haja realmente um estímulo maior para que a galera envie suas produções. A troca que esse espaço do blog permite é uma das mais interessantes em nosso universo cibernético.


Escrevendo na web

Como vimos, esta seção do blog Jovem Nerd é dedicada exclusivamente ao gênero conto, um tipo de narrativa de ficção cuja extensão, bem menor que a de um romance, é apropriada a uma leitura mais rápida, leve e dinâmica, justamente o formato pelo qual os leitores de web mais se interessam. A evolução das histórias pode se dar de forma seriada, o que estimula o interesse e a fidelidade dos leitores aos contos. E a plataforma na qual os textos são disponibilizados, que é o blog, confere contornos muito peculiares a esse tipo de produção textual, fundamentalmente a partir da possibilidade de interação entre os autores e seus leitores.

Sitala - parte 7

 O público-alvo dos contos do Jovem Nerd não é tão heterogêneo e difuso. Normalmente, se trata de pessoas que possuem em comum o gosto pelas temáticas que os contos adotam. E essas pessoas muitas vezes não só gostam (e muito!) destes temas, mas também os conhecem bastante bem, sendo capazes de entender o universo retratado, tornando-se, por isso, uma audiência crítica e rigorosa. 

Obviamente, os temas são livres, mas passeiam pelo universo da fantasia, da história e da ficção científica, essencialmente com enredos que se passam em contextos medievais, ou em futuros apocalípticos, ou em cenários “cyberpunks”, ou em universos fantásticos, com suas mitologias próprias. Sim, as possibilidades são inúmeras! Dragões, robôs, zumbis, reinos tirânicos, caravanas pelo deserto, piratas, deuses gregos... diversos elementos cabem neste mundo fantástico da criação de contos para nerds. E o ponto comum a essas temáticas é justamente a atmosfera de aventura e mistério que envolve as narrativas.
            
Porém, apesar de possuir uma audiência cativa, um rápido olhar voltado aos feedbacks dos leitores dos contos do Jovem nerd possibilita observar os principais problemas deste formato de “web conto”. São os próprios leitores que apontam estes problemas, algumas vezes com o intuito de ajudar no aprimoramento da escrita dos autores, outras vezes apenas para criticar sumariamente os pontos que consideram fracos e problemáticos nos textos.
            
Uma das questões apontadas é a extensão dos textos. Como vimos, o conto é uma narrativa sucinta. E a expectativa da audiência do blog é de que os textos postados não sejam cansativos e demasiadamente longos! Isso torna os contos enfadonhos. As pessoas não poupam críticas a textos muito prolixos, com pouca dinâmica ou falta de ritmo, e isso é atribuído, muitas vezes, à insensibilidade do autor, em não perceber a importância de compor um texto bem escrito, rico em elementos narrativos, mas, ao mesmo tempo, enxuto.
            
Outro problema que os leitores apontam com frequência são os erros gramaticais. A maior parte dos contos de Fernando Russell passam por revisão, o que limita a ocorrência destes problemas. Mas eventualmente isso ocorre. E irrita profundamente os leitores, passando-lhes a ideia de que o autor não escreve bem. Talvez a rapidez com que os textos são disponibilizados e a plataforma da web acentuem este problema.
            
Falhas e incoerências internas à lógica do texto ou enredo também são alvo de crítica dos leitores. E, se um deslize do autor talvez não fosse tão visível numa leitura individual e particular de um conto publicado em um livro, em um blog, com a possibilidade de tecer comentários, este deslize se torna absolutamente notório. Quem não percebeu o erro, ao ler os comentários, se dará conta dele. E normalmente o autor se vê na obrigação de reconhecer seu erro e se retratar. No conto “Mil olhos”, em determinado momento o personagem principal não consegue ler alguns manuscritos, porque se diz que ele é analfabeto. Mas, em uma cena anterior, o personagem havia “escrito” alguma coisa. E isso não passa despercebido pelos leitores. Assim, esta é outra particularidade de se escrever contos em um blog, contando com a opinião e a participação de quem os lê.

1000 Olhos - parte 8

A originalidade também é um ponto importante dos “web contos” do blog. Os leitores, ao se depararem com um texto, rapidamente estabelecem associações e percebem as referências feitas e as influências constantes nos textos. E eles questionam o autor, se essas associações foram intencionais, fortuitas ou apenas fruto de pouca criatividade.  No conto “Sitala”, por exemplo, isso acontece de forma massiva, já no primeiro post, uma vez que a temática do futuro apocalíptico devido à propagação de um vírus letal resvala em diversos enredos já existentes.
             
Em determinado momento, Fernando Russell escreve, em resposta a uma indagação de algum de seus vorazes leitores: “Gley, como eu comentei mais acima, é um conto, de periodicidade mensal, previsto para ter 10 capítulos. Se jogarem muitas pedras pode ter menos capítulos ou ser cancelado, como Jericho.” Essa fala mostra que as respostas dos leitores influenciam o autor. Não é fácil se deparar de forma tão direta e intensa com as críticas e feedbacks de quem consome sua produção. Lembremos de Stephen Fry, que nos anos 1990 saiu de cena do teatro inglês (e do cinema) devido à crítica negativa de uma de suas peças. Decidiu sumir por um tempo, mergulhado em depressão.

            
Pois é. É desafiador a qualquer autor estabelecer uma relação direta com seus leitores e se expor a todo tipo de críticas. Muitas vezes, o tom negativo das opiniões alheias acaba destruindo a imagem que o autor faz de sua história, como um possível sucesso, e derrubando o seu ímpeto criativo. Com tudo isso, vê-se bem que a experiência do “web conto” no blog é algo muito particular, sobretudo porque considera a noção de interatividade com a audiência sob um prisma muito intenso. E é difícil para o autor ser confrontado e indagado por seus leitores de forma tão expressiva. O resultado dessa interação é no mínimo interessante de se observar, e muito diferente dos contos publicados em livros normais. 


Cada um tem a “Caverna do Dragão” que merece

Caverna do Dragão
Quem não se lembra do desenho mais reprisado da TV brasileira de todos os tempos? Sim, é ele mesmo: “Caverna do Dragão”. Esta série animada, produzida nos EUA, começou a ser exibida aqui no Brasil lá atrás, ainda no “Xou da Xuxa”, nos longínquos anos 80, e (pasme!) até 2013 ainda era transmitida em canais como Fox Kids e Gloob (das Organizações Globo). Para quem não conhece (ou não habitou o planeta Terra nestes últimos 25 anos!), trata-se de uma aventura pra lá de emocionante, com uma temática mágica, meio medieval, meio contemporânea, que contava a história de seis adolescentes que foram a um parque de diversões e, depois de terem descarrilado numa montanha-russa chamada “Dungeons and Dragons”, foram transportados para um mundo paralelo, recheado de monstros, dragões, figuras demoníacas, armas poderosas e um mestre dos magos que os orientava a como voltar para casa. Eles nunca souberam por que foram levados a essa outra dimensão, nem jamais conseguiram voltar.

Durante a exibição dos episódios, o mistério crescia, à medida que as tentativas de voltar iam se frustrando. Diante de um intrigante e cativante roteiro, o que mais impressionou na história desta série foi que, apesar de ter conquistado uma legião de fãs pelo mundo, foram produzidos apenas 27 episódios, divididos em três temporadas. Depois disso, a série foi cancelada e, para completo desespero daqueles que se apaixonaram pela trama, nunca houve um final oficial para essa aventura, apesar de tantas especulações que surgiram depois.
            
Um dos contos do blog Jovem nerd se tornou a “Caverna do Dragão” de seus leitores. Trata-se do “web conto” seriado medieval intitulado “Mil olhos”, escrito por Fernando Russell (@cancerjack), com ilustrações de Victor Negreiro (@estivador) e revisão de Lucio Nunes (@Lucio_N). “Mil olhos” conta a história de Draszden, um soldado da guarda do rei de Annika cuja especialidade é a falcoaria. Sua caracterização é a de um homem alto, forte, com uma grande cicatriz no rosto (devido ao seu trabalho com falcões), viúvo, cuja esposa morreu no parto, e que possui um filho pequeno. É um homem esforçado e de valor, preocupado em dar à criança uma boa educação. Na trama ele se envolve com uma prostituta, mas também possui uma noiva, a quem não expressa muito sentimento ou emoção, embora demonstre respeito e apreço. A articulação de sua história se dá diante de uma sucessão de assassinatos ocorridos na lua nova, em que as vítimas eram encontradas sem os olhos.
            
A narrativa se constrói em terceira pessoa, com um narrador onisciente que nos permite vislumbrar o universo interior dos personagens, sobretudo Draszden, o protagonista. Além disso, o estilo é o de uma narração bastante pormenorizada, rica em detalhes de cenários, adornos, roupas e outros pormenores – uma ambientação que passa ao leitor a sensação de estar imerso na história, vivenciando-a, à semelhança do que acontece em um Role-Playing Game (RPG). Nessa modalidade de jogo, os participantes são brindados por seus “mestres de RPG” com narrativas detalhadas que lhes inserem em uma cena e demandam deles atitudes que constroem a aventura. A diferença, aqui, é que as imagens aguçam o imaginário do leitor, mas ele não atua modificando a história. A aventura do conto já vem delineada, mas este formato cria no leitor a impressão de que ele é participante da trama.
            
A primeira publicação deste conto seriado se deu em agosto de 2009, e cada uma de suas partes foi sendo lançada (história e ilustrações) com mais ou menos um mês de intervalo entre uma e outra. Assim, se tornou uma verdadeira febre entre os fãs do blog. Sua temática medieval é bastante conhecida do público do Jovem nerd e apreciada pela maioria. A linguagem adotada é rebuscada, com a utilização de um léxico muito peculiar que o autor escolheu para caracterizar a época (embora haja críticas dos leitores diante de certa mistura de linguagem arcaica com termos considerados contemporâneos). As ilustrações são muito elogiadas pelos leitores, num estilo realista, com coloração viva e normalmente representando uma cena rica em elementos para a construção imagética do conto. 

            
Depois de nove partes, o conto foi descontinuado pelo autor. Assim, destituído de final, “Mil olhos” deixou muitos fãs ansiosos por continuação, embora seja pouco provável que isso um dia ocorra. Até os dias de hoje há comentários de pessoas perguntando onde está o autor e quando conferirá um final ao seu texto. Como comentou um dos leitores, cada um tem a “Caverna do Dragão” que merece, o que, diante da qualidade dos textos e da audiência do blog, é realmente uma pena. 


Um velho futuro

Fim do mundo, vírus mortal, pandemia generalizada, sobreviventes alucinados querendo permanecer vivos, muitos miolos estourados, a humanidade quase inteira dizimada. Uma paisagem de desolação, cidades esvaziadas, cadáveres por toda parte. Tudo o que um NERD mais adora! E, para dar um toque ainda mais especial à coisa toda, diante de uma catástrofe gigantesca, o mundo acaba ganhando contornos de uma realidade futurista e medieval – ao mesmo tempo! Sitala é o nome deste conto seriado, cuja mistura de elementos passados e futuros é a cereja do bolo.  Escrito por Fernando “Tucano” Russell, traz ilustrações de Brunner Franklin.

Sintala - parte III

Narrado em primeira pessoa, este conto possui muitas similaridades com histórias conhecidas – filmes como “12 Macacos”, “Resident Evil”, “Eu sou a Lenda” e tantos outros –, que exploram a temática futurista apocalíptica. Com seu estilo coloquial de escrita, é um texto leve e informal, cujo narrador-personagem exprime uma visão pessimista e particularizada do mundo em que se passa a história, recheando a narrativa com suas críticas, reflexões, seus pontos de vista, suas opiniões, expressando medos e emoções – o que se torna uma ferramenta interessante de identificação com a audiência do conto, ao participar do universo emocional do personagem (e não apenas ser observador de uma aventura).
            
A temática de Sitala não é nada incomum. Pelo contrário. Há uma extensa produção na indústria cultural que imagina um futuro apocalíptico para a humanidade, quer fruto da intensa intervenção humana no meio ambiente, quer diante de uma rebelião de máquinas, quer devido à ameaça de um vírus letal espalhado pelo mundo em alguma guerra biológica ou apenas sendo propagado pelo ar. No caso de Sitala, o “apocalipse” acontece devido à última razão: a propagação de uma mutação do vírus da varíola. Assim, grande parte da humanidade é dizimada, as pessoas se tornam “lobo” umas das outras e a vida se transforma em um verdadeiro inferno, uma luta por sobreviver em meio ao caos.



            
Devido a tudo isso, esta série esbarrou, logo em seu lançamento, no perigo de cair no clichê, no senso comum. Isto porque, apesar de serem um prato cheio para a industrial cultural, tanto editorial quanto cinematográfica, as histórias com este tema acabam por se repetir demasiadamente. E isso irrita a audiência, que sempre espera algo surpreendente e arrebatador. Por se tratar de um “web conto”, a pressão ainda é maior, porque os leitores mandam seus comentários assim que o conto é publicado, sem perdoar o escritor, caso ele aparente estar “copiando” algum enredo já existente. Apesar de receptivos a fanfics, os leitores rejeitam clichês ou ideias copiadas, porque esperam originalidade, sobretudo de um escritor nerd. Assim, Sitala aparece como um alvo fácil de críticas. Ao mesmo tempo, devido à sua leveza e coloquialidade, também desperta o apreço por parte dos seus leitores.


Imagens e emoções

Engana-se quem acredita que só de textos se compõem os “Contos” do Jovem nerd. Eles também possuem ilustrações, que os caracterizam e são parte integrante deles! E elas são muito importantes para esta seção – tão importantes que a periodicidade dos contos seriados se adéqua ao tempo que o ilustrador necessita para fazer seus desenhos com qualidade (como explica Fernando Russell, autor de muitos dos contos, em suas respostas a comentários de leitores mais ávidos e ansiosos pelas publicações). Assim, este é um tema que merece uma atenção especial.
            
É interessante observar que as ilustrações que compõem os contos – especificamente “Sitala” e “1000 Olhos” – possuem uma identidade visual muito particular, facilmente percebida como pertencente ao universo de contos e histórias para o público nerd. Na verdade, as ilustrações são muito análogas àquelas de livros de RPG, obedecendo a alguns critérios técnicos semelhantes, como o uso de um estilo mais realista, com coloração viva e muita expressividade, o que ajuda o leitor a imaginar os cenários e os personagens narrados.

            
As pessoas que consomem literatura de RPG, ou propriamente jogam RPG, se alimentam da gama de elementos que as ilustrações acrescentam ao jogo. As ilustrações, por um lado, são um estímulo à imaginação dos jogadores; por outro, procuram criar um efeito de verossimilhança em uma narrativa muitas vezes de cunho absolutamente fantástico. As ilustrações dos contos do Jovem nerd, muito próximas a este universo do RPG, promovem mais ou menos esse mesmo tipo de relação, entre o texto e a imaginação do leitor, quase partícipe da história. 

1000 Olhos - parte I

As ilustrações normalmente são de cenas dos contos, e não se resumem a meros retratos. Elas possuem dinâmica narrativa e permitem a construção de contextos. Em “Mil Olhos”, por exemplo, a primeira ilustração representa o início do conto, em que o personagem principal acorda na cama de uma prostituta. O cenário é de um quarto pequeno e pouco iluminado. Vemos na imagem elementos constitutivos do personagem que está sendo apresentado, como suas vestimentas de soldado e a espada que ele carrega embainhada. Ainda não se sabe quem ele é, mas já se depreende algumas coisas sobre ele, a partir da relação texto-imagem. A ilustração ainda traz em primeiro plano a silhueta nua da prostituta, largada na cama, e o personagem Draszden de costas para ela, buscando o exterior – o que nos permite observar imageticamente o abandono da mulher e a desvalorização da prostituta, parte dos valores morais que permeiam o universo do personagem e da época retratados, os quais serão apresentados na narrativa escrita. A ilustração, assim, não somente corrobora os elementos escritos, mas possibilita a construção de interpretações que complementam e enriquecem a narrativa.
            
Sitala - parte I

No conto “Sitala”, somos transportados a uma realidade totalmente diferente de “1000 Olhos”, futurista e apocalíptica. As ilustrações são de cenas com imagens fortes, intensas e bruscas, que não apenas trazem contornos ao que é narrado, mas ajudam a conferir a própria tônica do conto. Narrado em primeira pessoa, o texto, apesar de conter um léxico coloquial, com uso de palavras fortes, que exprimem certa grosseria e violência, recheado de expressões e gírias, não constrói sozinho a carga de violência do texto. Essa carga é atribuída também e fundamentalmente às ilustrações. São elas que levam vida e coloração aos relatos, o que faz com que integrem o próprio cerne do conto.

            
Devido, assim, à profusão imaginativa que os contos do blog suscitam, as ilustrações se tornam um elemento essencial, na caracterização e ambientação das histórias e na própria constituição delas. Sem as ilustrações, os contos certamente possuiriam outras nuances.


Autores e leitores, leitores e autores

Sitala - ilustração
A seção “Contos” do Jovem nerd consiste, de certo modo, em uma exceção neste universo de conteúdos do blog – obviamente, não em sua temática. Os contos aqui também se destinam, como não poderia deixar de ser, a nerds. Porém, diferentemente das outras partes do blog, não se trata de uma seção de podcasts, mas de um espaço para publicações periódicas de textos literários, escritos por colaboradores do site ou por fãs que mandam seus contos para serem postados. Muitas vezes os textos são divididos em partes e publicados aos poucos – o que prende a atenção dos leitores e faz com que os escritores angariem muitos fãs (e muitos críticos!) assíduos. Os contos também trazem ilustrações, que ambientam as histórias e, indubitavelmente, são um espetáculo à parte.

1000 olhos - ilustração
Há três categorias na seção Contos: “Sitala”, “1000 Olhos” e “Fãs”. As duas primeiras são contos seriados de Fernando Russell, colaborador do blog, e a terceira são contos enviados pelos leitores. A dinâmica do blog é muito interessante, porque os autores podem interagir com os leitores, ao mesmo tempo em que os leitores se tornam autores! É realmente um espaço privilegiado para quem gosta de ler. E será que há algum verdadeiro nerd que não goste?

Os comentários aos contos merecem uma menção especial. Fãs dos textos da seção escrevem expondo suas opiniões, elogiando, criticando, apontando falhas, buscando esclarecimentos e revelando grande curiosidade diante de certos aspectos particulares das histórias, muitas vezes pormenores nos quais o autor sequer havia pensado. Essa interação cotidiana com o público leitor caracteriza e dinamiza os textos. Assim, há diálogo entre autor e leitor, o que certamente influencia o processo criativo, diante da simultaneidade entre publicação e recepção dos textos, o que dá ao autor um feedback muito rápido acerca de seus contos por parte de um público interatuante.


Em muitos comentários se evidencia o apelo dos leitores para que a escrita não se interrompa e haja continuação das histórias. Isso porque os contos cativam sua audiência. Um exemplo disso é o conto “1000 Olhos”, que foi suspendido pelo autor, mas que até hoje conta com pedidos da audiência para que seja retomado. Esta seção, assim, delimita os espaços diferentes de autor e leitor, mas propicia uma interatividade interessante, que faz com que essas fronteiras ganhem contornos mais suaves e confere aos textos uma dinamicidade diferente de contos publicados em outras plataformas que não a web.


Sobre o Jovem Nerd e a Crítica Nerd

O site Jovem Nerd é um blog de entretenimento criado em 2002 por Alexandre Ottoni (Jovem Nerd) e Deive Pazos (Azagal). O blog possui conteúdos em texto, vídeo e áudio que abordam temas como cinema, televisão, séries, ficção-científica, quadrinhos, livros e assuntos da atualidade. A atração mais popular do site é o Nerdcast, podcast semanal que trata de diversos temas e já recebeu prêmio de “Melhor Podcast” pelo “The Best of Blogs” em 2007.

O blog “Crítica Nerd ~ crítica da mídia jovem nerd” é um projeto realizado por um grupo de estudantes de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP para a disciplina de “Ciências da Linguagem III”. Os alunos André Meirelles, Daniel Muñoz, Marina Yukawa, Murilo Carnelosso, Pâmela Carvalho e Quéfren de Moura têm como objeto de crítica e análise o site “Jovem Nerd” e a partir de suas últimas postagens, podcasts e vídeos pretendem definir o que é a mídia, qual seu público e a relação deste com seus realizadores.

A dinâmica de análise se baseia nas categorias do blog Jovem Nerd que são: Nerdcast, Nerdoffice, Nerdplayer, Matando Robôs Gigantes, A Maravilhosa Cozinha de Jack, Colunas e Contos. Cada integrante do grupo de crítica se dedica a um título especificamente e analisa as seis últimas publicações de cada, podendo entender a divisão de conteúdo do blog e, no término, concluir sobre a mecânica do site Jovem Nerd como um todo, o que lhe confere identidade e interação com o público.

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